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Uma distopia tropical (A necrofilia nossa de cada dia – Parte I)

 

Bananeiras, 14 de março de 2018.

Ubaldo da Silva liga sua tela e não deixa de se impactar com duas manchetes que estampam os portais de notícias do país. Enquanto uma anuncia as ideias e intenções de um pré-candidato à presidência da república quanto à construção de campos para refugiados de países vizinhos, outra informa a morte, por execução a tiros, de vereadora da antiga capital da república.

Algumas semanas antes, clandestinamente, sem informar os colegas de escritório, Ubaldo deixou de tomar suas pílulas diárias de comprimido Globo, de modo que voltava a sofrer de um certo mal-estar diante das notícias diárias. Deixou também de usar o colírio Veja, recomendado pelos melhores especialistas do país, com o que, não sem certa estranheza, sentia-se enxergando melhor.

Livre do entorpecimento causado pelos medicamentos e não obstante a profusão de editoriais prontamente elaborados para banalizar os fatos, Ubaldo logo relacionou os dois eventos noticiados, que deslizaram em seu inconsciente remetendo-o a uma cena de necrofilia exibida ao vivo em um telejornal do almoço, poucos dias antes. Lembrou-se, ainda, de como as imagens foram compartilhadas pelas redes sociais, fruídas ao ponto de um colega ter-lhe confessado uma ereção ao assistir à cena televisada.

No final das contas, deduzia que, pela voracidade do olhar, todos tinham gozado daquele cadáver exposto e dilacerado em rede nacional, no que terminavam por se irmanar em tão fúnebre repasto. Em meio a essa conclusão e aos objetos que a fizeram emergir por uma espécie de associação livre, logo lhe veio por imediata conexão a imagem do grande líder de Bananeiras, talvez por seu aspecto cadavérico que, não obstante o discurso empolado e arcaico, fazia tremer – e temer – boa parte da população.

Os rápidos pensamentos já o abalavam à náusea quando lhe tomaram a mente as propagandas exibidas em sua tela para idolatria do líder-cadáver. Mas, ao mesmo tempo em que as imagens de idolatria publicitária se sucediam em seus pensamentos, vozes o faziam recordar os comentários feitos em segredo e ao abrigo da possibilidade de captação pelos celulares dos violentos fiscais dos bons costumes.

Livre dos efeitos dos comprimidos Globo e do colírio Veja, Ubaldo então podia compreender exatamente o que queriam dizer seus amigos subversivos com aquela narrativa mítica pela qual explicavam a origem e a ascensão do líder-cadáver de Bananeiras.

Pelo que se lembra da história contada à boca pequena pelos seus colegas Hermes e Platão, o dirigente maior de Bananeiras não se tratava de um defunto qualquer, mas de um com grandes ambições, movido por uma inveja da vida que o fez e o fazia mover todo tipo de armas na tentativa de implantar seu reino de morte. Ressentido por se saber nascido de relações oligárquicas abusivas mantidas entre os primos-irmãos Sádeo e Tupiniquínia, o líder-cadáver de Bananeiras amava a morte e odiava a vida com tanta intensidade que lhe lançou uma maldição a verdadeira Deusa da Justiça – aquela que perpassa a história e acompanha a humanidade em suas lutas contra a barbárie. Encarnada em uma mulher chamada Maria, Ela, a Deusa da Justiça, vaticinou: ainda que alcançasse o poder pelo temor, sendo de temer sua perfídia de raposa velha, tudo que o líder-defunto tocasse envelheceria imediatamente.

Embora ainda afetado por certa confusão mental, que atribuía a um efeito residual qualquer dos medicamentos cujo uso interrompeu, Ubaldo percebeu que, na verdade, mítica era a história construída pelo defunto-mor para tomar e manter-se no poder. A narrativa de Hermes e Platão melhor descrevia a realidade e, bem provavelmente, a roupagem mítica que lhe conferiam prestava-se justamente à tentativa de escapar à censura imposta diariamente por membros de movimentos como o Bananeiras Livre e o Chateados na Tela, dentre outros, os quais, de qualquer modo, se empenhavam na perseguição a todos que, segundo seu entendimento, destoassem da concepção que têm de um mundo perversamente perfeito – que até ganhou uma versão televisiva, protagonizada por quatro bonecos pouco eloquentes e de cores variadas.

A maldição que Maria lançou por Ela, a Deusa da Justiça, se concretizava dia após dia. O defunto-dos-defuntos de fato envelhecia tudo que tocava. Envelheceu a própria mulher, que aprisionada em grades moles a um relacionamento clichê da primeira metade do século passado, viu-se vinculada a discursos dos mesmos tempos idos. A saúde e a educação sob o comando do rei das necrópoles retrocedeu mais de duas décadas e, a partir de um discurso de ordem e progresso, o que se podiam ver eram desordens e retrocessos capazes de fazer reencarnar espíritos totalitários, despertados de sonos profundos em berços esplêndidos pela mão invisível de que se fez servo o líder-cadáver de Bananeiras – esperando, assim, poder se livrar da maldição da Justiça.

Seu poder de mortificar tudo o que toca tornou-se tão grande que terminou por envelhecer o próprio discurso pelo qual pretende embrulhar para presente as velharias que impõe ao povo de Bananeiras. O paladino dos ataúdes parece até não saber que o duplipensar ou a exaustão da mentira até que se torne verdade (ou a tortura da verdade até que se torne mentira) são histórias antigas, que já nos foram contadas por Klemperers, Orwells e Huxleys, justamente para alertar quanto aos abusos que se veiculam pelo amálgama de formas e sentidos de palavras como ignorância/sabedoria, mediocridade/eficiência, justiça/vingança e tantas outras outrora utilizadas por um seu primo de parcos e geométricos bigodes, que por pouco não fez vingar o projeto familiar de necropolizar o mundo.

Esse turbilhão de reflexões só fez ampliar o mal-estar de Ubaldo que, além das fortes dores de cabeça, se via acometido de fotofobia e alguma paranoia, com profunda desconfiança em relação a todos que o cercavam e que, de qualquer modo, partilhavam dos festins necrófilos servidos diariamente pela grande mídia de Bananeiras.

Um dia, de camisa vermelha, notou que alguém o seguia de celular em punho e acelerou o passo, escondendo-se atrás de um carro após dobrar a esquina. Ofegante, mas incerto quanto à realidade da perseguição, ponderou:

– Não é porque sou paranoico que não posso ter razão… Mas (forte vertigem)… Alguém já disse isso antes de mim1!

Domingos Barroso da Costa, Defensor Público.

1 Fica nossa homenagem ao Henfil – criador do personagem Ubaldo, o Paranoico –, a seu irmão e a tanta gente que parte e partiu, num rabo de foguete, deixando em dolorido pranto os que amam a vida nesta pátria mãe gentil.

 

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