Blog das Carreiras Jurídicas pela Democracia

Central

Já faz tempo o sol nascia quadrado. Nas roupas penduradas nas janelas, cheiro de morte, de abuso, de suor, de podridão de alma. Por trás das roupas, o sol esmaecido, a vida se esvaindo, o tempo escorrendo. Fazia séculos que dividia aquele pedaço de chão com outros companheiros. Muito tempo que sua mente não sentia mais.

Agora só vegetava, corpo inerte, cabeça sem pensamento.

Dia e noite, tudo sempre igual.

Lua se indo, deixando rastro de melancolia, ardor na alma, saudade ardida como sal na ferida.

Janela em cima de janela, vida ao lado de vida, porta gradeada. Tudo sempre igual.

Costela grudada na pele, fome de amor, gana de pão feito em casa. Tosse de cão a incomodar os outros, desculpa pro coice no pulmão preto e débil.

Visita da mãe, hora de penar por dentro. Pena da mãe, mão como uma pena a acarinhar o rosto magro e pedinte.

Todo o dia tudo sempre igual.

Trabalho forçado, hora do sossego, hora do abismo, trágico momento do acerto consigo mesmo. Quando o assobio sai sem querer e rasga a lei do silêncio, quando até os guardas têm medo. Quando a sombra passa de lado, fingindo não se ver.

Lista grande e pesada: areia, cimento, água e resignação.

Todo dia a mesma cantilena. Subir paredes, tijolo por tijolo. Com sol ou com chuva.

Naquela terça-feira acendeu a lâmpada do pavilhão. Feita a luz, fez tudo diferente. Pegou a marreta e pôs tudo a perder. Fez da parede em nacos a sua libertação.

Karla Aveline, Juíza de Direito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to top