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Desonra à brasileira

Dentre outras associações possíveis, a recente morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, remeteu-nos diretamente ao romance “Desonra”, escrito pelo sul-africano e Nobel de literatura John Maxwell Coetzee. Mais precisamente, o suicídio do reitor faz com que a vida real se aproxime da primeira parte da referida narrativa, em que se relata o envolvimento sexual do experiente professor David Lurie com uma de suas jovens alunas, Soraya, fato que provoca grandes abalos em sua vida, inclusive o encerramento de sua carreira acadêmica, em circunstâncias que beiram a surrealidade.

Aliás, aí se identifica um dos muitos e grandes méritos do romance: a descrição viva de circunstâncias que conduzem o personagem principal, o professor David Lurie, a uma experiência em que parecem se desatar os nós que garantem alguma realidade a sua existência. Na ficção, essa experiência de surrealidade deveu-se ao julgamento e ao opróbrio a que foi exposto após seu envolvimento sexual com uma aluna maior e plenamente capaz de consentir ou recusar a relação estabelecida.

Ciente de que seu comportamento não era conforme com os padrões éticos segundo os quais seria o caso analisado, Lurie admitia a responsabilização pelo ocorrido – talvez até a desejasse – nos limites dos códigos que a determinassem formalmente. De fato, o que o surpreende, e ao mesmo tempo evidencia todo seu desajuste em relação à contemporaneidade, é a percepção de uma exigência de humilhação pública por parte de seus juízes e acusadores – alguns colegas e o pai de sua aluna –, sua busca ferrenha por uma assunção de culpa moral por ele nem cogitada e que transcendia a responsabilização racional para mais se aproximar de uma expiação religiosa. Nessas circunstâncias, percebeu o protagonista que a racionalidade que estruturava seu mundo estava perdida e dava lugar a furores e extremismos vários, a coerência pública sendo superada pela emergência de demandas individuais fragmentadas e de feições autoritárias.

Aqui, onde a justiça pública e a racionalidade dão lugar ao espetáculo de múltiplas vinganças, passamos da ficção à realidade, estabelecendo a conexão entre as histórias de David Lurie e Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Contextualizando a aproximação proposta, destacamos, primeiramente, que, em ambos os casos – Brasil e África do Sul –, temos países marcados pela colonização e suas consequências, que incluem altos índices de violência e dominação por elites conservadorasi.

O segundo ponto importante a relacionar ficção e realidade na desonra que nos apresentam diz respeito à trajetória acadêmica de Lurie e Cancellier. Ambos constroem suas vidas na universidade, ambiente que é povoado por aqueles que Bruno Latour denomina “caros colegas” ii, indivíduos que, ao mesmo tempo em que se detestam, detêm o repertório simbólico necessário para se avaliarem uns aos outros.

O terceiro ponto de encontro entre a arte e a vida a merecer destaque se relaciona ao fato de que, tanto num caso quanto noutro, observamos países bastante afetados por fenômenos próprios da pós-modernidade, no que destacamos a ascensão do capitalismo financeiro, a globalização, a espetacularizaçãoiii etc. E, detendo-nos na espetacularização corrente, temos que, tanto para o brasileiro, quanto para o sul-africano – segundo Coetzee –, o devido processo legal e as consequências a ele inerentes já não são suficientes. É preciso um “a mais” que exponha o acusado e, assim, faça gozar seus acusadores, seus julgadores e a plateia que eventualmente se estabeleça. Ou seja, é preciso que sejam atribuídas cores fortes às notícias veiculadas para que propiciem o espetáculo ansiado e se imponham como verdade antes mesmo da apuração racional dos fatos na sede adequada, noutros termos, naquela definida pela lei.

Pois bem, atando os três pontos destacados, temos que o julgamento sumário de Cancellier pelas empresas de comunicação e seus porta-vozes – e, provavelmente, por boa parte de sua audiência – deu-se no contexto de um amplo movimento que busca legitimar um golpe pelo qual as elites não votadas retomam o poder. Um processo de legitimação que age com pressa e se marca pelos esforços de ilusionismo com que se busca fazer parecer que o sistema penal não é seletivo, que autoridades também são investigadas, condenadas e desonradas em rede nacional. Ao final, vamos descobrindo que pau que dá em Chico, até dá em Francisco, mas não alcança muitos joões, geraldos, josés, renans, entre outros.

Também percebemos que nem o corporativismo resiste ao processo acima denunciado. Nada como ver um “caro colega”iv de sucesso descer pelo ralo. Afinal, a queda de quem está por cima também faz crescer os que estão por baixo, ainda que nessa dinâmica acabe exposta a vaidade que move a omissão dos que estavam próximos da situação e, com conhecimento de causa, poderiam se opor mais incisivamente ao linchamento imposto a seu igualv.

Por fim, chegamos ao “pão e circo”, ao espetáculo que faz gozar e anestesia o senso crítico. Se, no romance de Coetzee, temos um palco restrito para a desonra do professor Lurie, no Brasil contemporâneo, temos um grande cenário armado para que o maior número de pessoas possa assistir ao espetáculo da vingança que grassa livre dos estreitos limites do devido processo legal, julgando, em tempo real, aqueles que, por qualquer motivo – inclusive por ressentimentos das mais variadas ordens –, são apontados e tidos por “inimigos”vi. Fatos e juízos são apressadamente trazidos à tona enquanto vidas são devassadas, tudo maximizado através dos meios de comunicação, em edições que visam não à informação do público, mas à sua sedução. E a sedução não se dá pelo ordinário, pelo simples relato de fatos, mas pela construção de enredos capazes de atrair pelo que exista de extraordinário, de surpreendente; não pela suspeita, mas pela convicção da culpa. A bem do espetáculo da vingança e da satisfação de ressentimentos, o que ao final se apura como uma relação sexual consentida entre maiores pode ser de pronto qualificado como estupro; uma suspeita de obstrução à justiça pode, de imediato, ser apresentada como desvio de milhões, por anos a fiovii…

Era exigido do professor David Lurie a confissão da culpa e a expiação pública de seus pecados. Para Luiz, não bastava que fosse investigado e eventualmente acusado por atos que implicassem obstrução à justiça. Era preciso que fosse preso, despido, averiguado intimamente e, depois, proibido de se aproximar da universidade em que lecionou por décadas, da qual era inclusive vizinhoviii.

E já se observam os movimentos pela execração pública e espetacular de quem o execrou, outra vez impulsionada a roda da vingança que mói a justiça e a racionalidade, mas garante audiência e patrocínio.

De todo modo, certo é que, apesar das semelhanças, os dois casos jamais poderão ser confundidos, separados que estão por um ponto de fratura que entre eles abre uma distância intransponível: se na literatura o personagem se eterniza, é na realidade que se morre de desonra.

Irremediavelmente.

iNo sentido empregado por Juremir Machado da Silva in Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
iiA expressão é extraída de texto estudado no âmbito do Seminário de Pesquisa II do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas, promovido pelo professor Dr. Jarbas Santos Vieira. Trata-se de tradução atribuída ao Professor Dr. Pedro Vieira Abramovay, realizada a partir da conferência-debate realizada no Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica de Paris, em 22/09/1994, pelo Dr. Bruno Latour, intitulada A profissão de pesquisador: olhar de um antropólogo.
iiiDEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
ivValendo-nos novamente da expressão de Latour, já referida.
vhttp://www.diariodocentrodomundo.com.br/deduragem-de-colegas-foi-o-que-mais-doeu-no-reitor-da-ufsc-e-o-fez-desistir-por-renan-antunes/
viRemetemos, aqui, ao texto “De bombeiros piromaníacos e a exploração midiática da violência”, publicado neste sítio: http://www.disputandoodireito.com.br/2017/09/26/de-bombeiros-piromaniacos-e-a-exploracao-midiatica-da-violencia/
viiNo caso de Cancellier, observa-se que, com apoio em sua prisão cautelar, foi prontamente apontado por muitas empresas de comunicação como envolvido no desvio de cerca de 80 milhões, ao longo de aproximadamente dez anos. Contudo, pelo que se pode saber após seu ato extremo, a apuração se limitava a atos que estariam dificultando as investigações, nada relacionados a uma atuação efetiva na prática dos desvios por parte de Luiz, que era reitor havia cerca de um ano e, até então, ostentava histórico respeitável na UFSC.
viiihttp://www.diariodocentrodomundo.com.br/parte-da-responsabilidade-pela-morte-do-reitor-da-ufsc-e-da-juiza-que-decretou-sua-prisao-por-Luiz-felipe-miguel/

Arion Escorsin de Godoy e Domingos Barroso da Costa, Defensores Públicos.

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