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Tango, uma cultura popular

Nunca é demais lembrar que em tempos de censura, em toda história, os governos autoritários se esforçaram por silenciar aqueles que não comungavam de suas posições e ideias. Isso também atingiu o Tango, inclusive no período de 1930 até 1943.

Inicialmente, a maioria das letras dos Tangos possuíam muitas palavras em Lunfardo, que vem de Lumbardo, ou seja “ladrão”, uma gíria, originalmente, utilizada por ladrões, que, posteriormente, estendeu-se para a classe baixa e media baixa, mas nunca para classe aristocrática e culta.

Assim, no ano 1931, José Félix Uriburu ordenou mudar o título do Tango de Cobián e Cadícamo “La casita de mis viejos” para “La casita de mis padres”.

Também ocorreu com El bulín de la calle Ayacucho, que mudou para Mi cuartito feliz. El ciruja, passou a ser El recolector. Shusheta, recebeu o novo nome de El aristócrata. Yira, Yira mudou para Camina, camina. Que vachaché para Qué vamos a hacerle. Chiqué passou a El elegante. O tango Chorra quando dizia “chorra, vos tu vieja y tu papá” teve que mudara para “ladrona, tu padre y tu mamá”.

Contudo, por mais ilógico que pareça, muitos tangos não sofreram tal censura prévia.

Talvez, porque existisse uma crença de que os censores, aristocratas, em sua maioria, não os escutavam.

Horácio Petrossi faz uma crítica, em Aquaforte, 1931: “…Un viejo verde que gasta su diñero/ Emborrachando a Lulú con el champan/ Hoy le negó el aumento a un pobre obrero/ Que le pidió un pedazo más de pan”.

Celedonio Flores com Pan, em 1932: “Sus pibes se mueren de frio/ y lloran nhambrientos de pan…/ cachó la Barreta…Resuelto a robar…/ Un vidrio, unos gritos, auxilio, careras/ un hombre que llora y un cacho de pan.

Isso não impediu a censura posterior, como com Mario Batistella, 1933, Al Pie de Santa Cruz: “Declaran la huelga,/Hay hambre en las casas,/ Es mucho el trabajo/ Y poco el jornal;/ Y en ese entrevero/ De lucha sangrienta,/ Se venga de un hombre / La ley patronal”. A letra passou para: “Corría la caña/ y en medio del baile/ la gresca se armó./ Y en ese entrevero/ de mozos compadres/ un naipe marcado/ su audacia pagó.”.

Contudo, com a aparição de La Fusiladora, no ano de 1955, se estabeleceu uma política de segregação contra esta cultura popular, quando começaram a perseguir o povo com o estado de sítio, combatendo-se as expressões populares. O estado de sítio reinante impediria as reuniões de mais de duas pessoas, com o qual os bailes populares, principalmente as milongas (bailes de Tango), se viram ameaçados pela proibição reinante (mediante o decreto-lei 21329 del 9 de junho de 1976).

Assim, tentaram reprimir o Tango pelo seu caráter popular, o qual possuía uma forte crítica social.

Alexandre Schwartz Manica, Juiz de Direito.

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