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Nazismo: o que a história nos ensinou?

Recentemente, as redes (anti?)sociais foram tomadas pelo seguinte debate: seria o nazismo um movimento político de direita ou de esquerda? Independentemente da resposta – que é óbvia, ao menos para os europeus, que foram diretamente afetados pela onda totalitária nazista –, certo é que, além de estéreis, tais discussões somente escamoteiam o que ainda há de nazismo e fascismo entre nós, mantendo na superfície dos dilemas tupiniquins um debate que deveria ser muito mais complexo – e que inclusive poderia conduzir a conclusões acerca da proximidade dos extremos, dentre outras tão interessantes quanto e bem mais férteis em nosso atual contexto.

De todo modo, como exercício de reflexão, para chegarmos à questão de fundo – o totalitarismo que se apresenta sob rótulos como nazismo ou fascismo –, vale analisarmos, primeiramente, o fenômeno de superfície que nos toma atualmente e que pode vir à tona a partir do seguinte questionamento: por que as massas que debatem em redes sociais – especialmente os chamados haters – preferem os argumentos e conclusões mais simples para questões, de fato, bastante complexas?

Essa pergunta, sem dúvida, admite muitas respostas, mas, neste breve espaço, sugerimos duas. Em primeiro lugar, podemos concluir que as soluções simplistas, além de facilitar conversas intermináveis do tipo blá blá blá, são bastante adequadas à informação fragmentada e rasa que se adquire em redes sociais. Noutras palavras, foram-se os tempos em que livros eram lidos de cabo a rabo, possibilitando a formação de juízos – não de simples opiniões – sobre determinados temas a partir da ótica de determinados autores. Isso possibilitava – ainda que não garantisse – a formação de juízos coerentes que, se não impediam, ao menos limitavam afirmações que conjugassem ensinamentos de paz ou mensagens ecológicas de apoio aos animais com afirmações raivosas do tipo “bandido bom é bandido morto”. Em segundo lugar, acreditamos que discussões superficiais permitem que recalquemos – escondamos debaixo do tapete – o que é de fato importante, possibilitando, inclusive, que nos esquivemos de nossas próprias responsabilidades em relação à precariedade de nossa situação política, social e econômica. Em suma, na superfície se respira melhor, então, em vez de procurarmos nos aprofundar em qualquer assunto, inclusive para compreendermos do que se trata, preferimos o conforto de repetir os discursos extraídos de memes ou similares que, não fosse o detalhe de não virem acompanhados de varinhas mágicas, certamente resolveriam os problemas do mundo – ou pelo menos acabariam rapidamente com ele, o mundo.

Ou seja, na medida em que levamos adiante discussões rasas acerca da posição ideológica do nazismo, se à direita ou à esquerda, deixamos de nos ocupar do que é importante por ser permanente nesses fenômenos. Refere-se, aqui, justamente à tendência dos seres humanos de abrirem mão de sua capacidade crítica, entregando a formação de suas opiniões a outros, geralmente figuras que encarnam um pai forte e são escolhidas como líderes. Mas não é só: para que o magnetismo desse líder seja maximizado, necessário que nos reunamos como grupo homogêneo e escolhamos inimigos comuns e estereotipados – bodes expiatórios – contra os quais possamos nos unir e nos afirmarmos superiores, normalmente por questões naturalizadas ou superficiais, como são a cor da pele, a condição social, a região de nascimento, a orientação sexual, a religião professada etc.

Se soubéssemos um pouco mais de história, saberíamos que nenhum movimento de fundamentos semelhantes foi salutar para a humanidade. A roda de intolerância e violência que impulsionam só pode resultar em catástrofe, no massacre (real ou simbólico) dos perseguidos e dos perseguidores, independentemente de estarem à direita ou à esquerda. Enfim, enquanto discutimos a orientação nazista, mal nos damos conta de nossa própria desorientação diante desse espírito totalitário que permanece à espreita e que, após tempos de latência, sempre ressurge à procura de novos ódios pelos quais possa, mais uma vez, tentar conduzir a humanidade à ruína.

Domingos Barroso da Costa, Defensor Público

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