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Arte e censura

Causou polêmica a decisão do Banco Santander de suspender a exposição de artes plásticas denominada Queermuseu, que estava em cartaz desde 14 de agosto no Santander Cultural. A decisão foi tomada depois que ativistas do MBL classificaram-na de ofensiva aos valores da família e da sociedade. Sabe-se que alguns visitantes da exposição foram constrangidos, ofendidos verbalmente e que houve um intenso debate nas redes sociais.

Importante referir que a exposição continha 270 obras de 85 autores, alguns muito famosos como é o caso de Cândido Portinari. Uma das obras que chocou os ativistas do MBL retrata duas crianças e as seguintes expressões: “Criança viada, travesti da lambada”, e “criança viada deusa das águas”. Ao que parece, não foram as crianças que causaram impacto, e sim, a associação entre as palavras criança e viada. Não há na pintura nada que indique relação sexual, mas ainda assim muitos viram ali uma obra de conotação sexual. Mas essa não é a única interpretação possível. Talvez o artista tenha apenas pensado em assinalar a busca de uma identificação de gênero, sem qualquer relação com ato sexual; talvez tenha pensado em reforçar a autoestima daquela criança que se descobre diferente, que sofre rejeição e que precisa aprender a lidar com as suas diferenças em um mundo que lhe é hostil; talvez quisesse apenas registrar a diversidade num esforço de afirmação.

A obra de arte tem essa peculiaridade de gerar sensações distintas dependendo do lugar de observação de cada um, e tem também a pretensão de fazer pensar, provocar a reflexão. Por isso o artista genuíno não se limita a retratar o “belo”, o “correto” de acordo com padrões comuns. Muitas vezes é preciso causar estranhamento, provocar sentimentos ambíguos, impactar. E a criatura às vezes se descola do criador, pois a obra pode gerar sentimentos e interpretação inesperadas e sequer cogitadas pelo autor. E essa possibilidade de gerar sentimentos ambíguos, divergentes, comoção e rejeição, admiração e repulsa é própria das obras de arte. Por isso não se compreende a censura. A aceitação ou rejeição da obra é parte do contexto cultural. Se prevalecer apenas a posição de quem a rejeitou, estará se perdendo a oportunidade de colher outras interpretações e por conseguinte a possibilidade de crescimento.

A diversidade e a heterogeneidade são fatores de crescimento de qualquer agrupamento humano, pois, ao se estabelecer o conflito de posicionamentos, surge a necessidade de se buscar soluções consensuadas, de conciliar as contradições internas. E a tentativa de compreensão das diferenças, quando bem conduzida, provoca mudanças interpessoais que levam ao crescimento de todo o coletivo.

A arte, em quaisquer de suas formas, sempre exerceu um papel fundamental nesse crescimento humano. Os artistas, por sua percepção diferenciada, são os principais agentes da mudança, pois são mensageiros do novo. Aquele que tem criatividade, que é capaz de ver o mundo com sensações diferentes, que foge ao senso comum, produz obras que provocam encantamento, reflexão, inquietação e perplexidade. Aquele que não deseja o crescimento pessoal, que não se arrisca a sair da sua zona de conforto definitivamente não deve frequentar exposições de arte e museus.

Rute dos Santos Rossato, Juíza de Direito

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